quinta-feira, 3 de julho de 2014

Utopia

Obi está tendo alguns sinais do estresse da mudança de ambiente e de alimentação (cocô meio mole, minha gente), aí ligamos para o abrigo pra saber o que ele estava comendo (tínhamos perguntado antes ao responder um sms perguntado como ele estava, mas sem resposta) e nos certificarmos de que o vermífugo estava em dia. Prontamente responderam e pediram para passarmos lá.

Tero foi lá depois do trabalho e, durante quase uma hora, ficou conversando com duas senhoras atenciosas e curiosas para saber sobre o Obi e sobre mim (todash quer saber de mim), e o Obi recebeu: vermífugos (embora esteja em dia), 2 pacotes de Royal Canin Sterilized (sim, é o que todos os gatos comem lá) de 800g, diversos sachês de comida molhada (sim, eles comem diariamente para evitar cálculos urinários) e umas 500g de galinha já cozida e picadinha (eles comem galinha ou salmão fervido diariamente).

Não sei muitos detalhes ou se o abrigo recebe alguma ajuda pública, só sei que uma das sehorinhas que nos atenderam é quem sustenta esse paraíso. Não bastasse, ela ainda me ofereceu um emprego lá (que ainda não posso aceitar porque estou esperando a imigração me dar o resient permit). Serei crazy cat lady oficialmente.


A realidade é tão distante que me dá um aperto de saber que, no Brasil, a imensa maioria dos protetores abrem mão de tudo para que seus animais tenham o que comer. E é uma luta diária.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Obi

OBI.  African.  From Ibo óbì, meaning "heart." (Anthropological Report on the Ibo-Speaking Peoples of Nigeria, Thomas, 1913).
  
Juuso foi encontrado na casa em que morava com mais 3 gatos, em outra cidade - Jungsund -, após seus donos se mudaram e os deixaram pra trás. Eles foram acolhidos pelo abrigo aqui de Vaasa chamado Vaasan Kissatalon, um paraíso para qualquer cat lady que se preze. 

A casa tem dois andares e dezenas de gatos. No andar de baixo eles ficam soltos, no de cima, ficam em 3 diferentes peças. É impossível escolher alguém! Eu ficava me imaginando ter que me justificar pra todos os outros porque escolhi um e não qualquer outro. Ainda bem que não precisei fazer isso.

Fomos na open house que acontece todas as quintas-feiras, das 18h às 20:30, e assim que o Tero começou a conversar com uma das mulheres que estavam cortando o frango cozido que logo seria servido; por volta de 60 anos, um enorme corpo redondo, cabelos escuros, grandes óculos e com uma expressão muito amigável, outras duas vieram e eles ficaram conversando por alguns minutos. Tero me contou que estavam insistindo para que fôssemos conhecer um tal de gato cinza que estava em outra casa. Eu não entendi o porquê, mas como não fazia qualquer diferença pra mim de qual gato traríamos pra casa, lá fomos nós.

Juuso estava numa sala no segundo andar, sozinho. É possivelmente o gato mais carente que já conheci. Uma das duas mulheres que foi conosco até lá, uma moça tímida, falando inglês, com cerca de 20 anos, cabelo curto, preso e com algumas mechas cor-de-rosa, também muito redonda e de óculos grandes, terminou de contar a história dele: fora adotado há alguns meses, mas depois de 3 meses, o trouxeram de volta justificando alergias. Ele estava muito triste e carente, novamente no abrigo há algumas semanas,sentindo bastante falta de ter uma família. "Ele está desesperado para ter um lar", disse ela.

Bom, eu estava desesperada para ter um gato. E esse aqui é o Juuso Obi. :)





Ele tem cerca de 3 anos, está vacinado, castrado e desvermifugado. A taxa de adoção é de 100 € e só será cobrada após o período de adaptação de 2 semanas.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Spring

Das imensas diferenças climáticas, a primavera por essas bandas é tão gelada quanto o inverno gaúcho. Com o passar das semanas, aos poucos, a temperatura está aumentando e, em alguns dias, chega a passar dos 10ºC. A média fica nos 5ºC.

A gente decora no colégio que o RS tem clima subtropical com as quatro estações bem definidas. No contexto brasileiro, até acredito. Mas comparando com o clima daqui, o RS varia de frio a calorão, de chuvoso a seco, de mais florido a menos florido. Mas, no geral, o cenário é o mesmo. Em três meses aqui, o panorama mudou de completamente tapado de neve a cinza com uma graminha tímida e galhos secos (quando a neve derrete, mas as as folhas ainda não voltaram e a vegetação tá toda pelada), e agora quase tudo verde.

Logo no início da estação, ainda com um pouco de neve, pude ver as primeiras flores colorindo a paisagem. Estas mocinhas pequeninhas azuladas fazem uma grande diferença:

Tulipas de todas as cores e dentes-de-leão começaram a aparecer por todos os cantos logo em seguida. Mas a mais sensacional de todas é o lírio-do-vale, flor nacional da Finlândia:

Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo colorido como o mundo a Disney, se não fosse uma espécie demoníaca de árvore. *Música dramática de terror começa a tocar*


Absolutamente feroz, o vidoeiro-branco é um adolescente de 14 anos que acaba de descobrir o Redtube e tem apenas duas horas por dia livres para praticar o onanismo. Esse jovem rapaz precisa aliviar toda essa tensão hormonal durante esse pequeno período antes de sua mãe chegar do trabalho com a caçula da creche. O vidoeiro é impetuoso e não demonstra nem uma fração sequer de piedade. Dodô é violento, bárbaro, vigoroso e teve de se recolher no outono e dormir por todo o inverno e AGORA É A HORA. Dodô derrama sobre a cidade uma explosão do mais potente pólen jamais visto (por mim, é claro). 

Eu não tenho alergias ou problemas respiratórios de qualquer tipo e estou com coceira pelo corpo, olhos inchados, nariz escorrendo, espirros constantes e rosto ardendo porque Dodô está enlouquecido se reproduzindo.



sábado, 12 de abril de 2014

Name Day

Em todo calendário finlandês, em cada dia, há alguns nomes de pessoas. É uma tradição medieval que existe em vários países (e que eu nunca tinha ouvido falar) chamada Dia do Nome e aqui, por mais que nada de especial aconteça, vale ao menos teu nome no calendário e um "parabéns". 

E, para minha surpresa, tem um dia para Juliana!!!! :D Que na versão finlandesa fica Juliaana.

Eu até me certifiquei se não tinha um protocolo a seguir, como dizer meu nome para alguém, escrever em algum livro com lista de nomes ou usar um crachá, mas não, é só olhar no calendário e ver teu nome ali mesmo.

Bom, por mais banal que seja, me senti incluída.

Aqui tem a lista, procura e descobre se tem teu Name Day também!

segunda-feira, 17 de março de 2014

30 days

Balanço dos 30 dias aqui na Finlândia:

* O leite e seus derivados são muito mais gostosos e saborosos, sem formol ou soda cáustica;
* Em andanças a pé, de carro e de ônibus, inclusive indo pra outra cidade, encontrei apenas 2 buracos no asfalto, ambos na mesma rua;
* Ninguém usa batom vermelho, e pessoal fica encantado quando eu uso;
* Bebês e crianças me amam;
* Todo mundo me percebe, mas o caras encaram sem muito pudor, mesmo quando estou de mãos dadas com o Tero - SUCESSO!;
* Existem poucas farmácias, e, sem receita, tu consegue comprar apenas ibuprofeno, paracetamol e meia dúzia de outros remédios bobinhos. Além disso, remédio é remédio, não importa pra quem, então há uma seção veterinária no mesmo estabelecimento;
* Os travesseiros são pequenos, quase metade do tamanho dos travesseiros no Brasil. Na cama, só é usado o lençol de baixo e uma capa para o edredon - que é sempre de solteiro; na cama de casal, há dois -, funcionando como o lençol de cima. Ainda acho estranho, mas evita roubos durante a noite hehehe e não precisa lavar o edredon inteiro, toda semana a capa é lavada com o resto da roupa de cama, só que sinto falta de me enrolar em edredon de casal;
* O trânsito é bem pacífico <3;
* Ninguém reclama de frio;
* Todo mundo usa ceroulas e ninguém fica de "hehehe";
* Existe o fenômeno da loira falsa invertida - as racha aqui piram na tinta preta, mas não retocam a raiz tão frequentemente quanto deveriam -, super achando que abafam;
* Falando em tintura, eu tenho vontade de pegar essa mulherada pelos ombros, dar uma sacolejada e dizer bem claramente: NOPE. NOPE. NOPE. É tanto cabelo manchado e maquiagem pesada e fora do tom da pele que dá muito nervoso;
* Cadê as renas??? :'( ;
* Baunilha, baunilha, baunilha;
* Duchinha na privada é vida;
* Dá pra separar todo o lixo e destinar cada material para o lugar certo, mas o lixo seco é queimado;
* É possível ganhar uma boa grana retornando latas e garrafas em máquinas automáticas nos supermercados e lojas de bebidas, uma garrafa de refrigerante, por exemplo, vale € 0,40;
* Água quente em toda e qualquer torneira é muita alegria na vida;
* O sol está bêbado e anda errado por este céu;
* A água gira ao contrário, e isso é bizarro;
* Tu mesmo tem que tirar a louça da mesa em qualquer restaurante ou café;
* Açúcar em torrões :D;
* Tem bicicletas por todos os cantos;
* Eu fico feliz quando acho pelos das minhas crianças nas roupas e nem quero limpar;
* Muitas saudades;
* Nunca me senti tanto "dust in the wind";
* Sou imensamente grata por estar vivendo tudo isso;
* O amor é transformador;
* A gente carrega nossos monstros para onde quer que a gente vá.

domingo, 16 de março de 2014

The trip inside the trip inside the trip

Então pegamos a estrada com destino a Virrat, cidade em que o Tero nasceu, para a festa de aniversário da Mira, irmã dele. Tinha essa expectativa gigante de conhecer a família e de a família me conhecer, mas fica pro outro post. Esse é sobre a viagem de ida e de volta, 3h cada.


Saímos de Vaasa ao entardecer, logo ficou escuro. Estrada à noite é bem entediante, não dá pra ver paisagem alguma, e ele só me dizia "Ah, tem um lago ali, mas não dá pra ver..", "Tem outro lago daquele lado, mas tá muito escuro.", "Ah, queria te mostrar a floresta!". 
Sem muita emoção mesmo... Porém três coisas me chamaram a atenção: tem um treme-treme-acorda-motorista na divisão entre as duas faixas para um "ACORDA, MALUCO", tem umas varetas com tinta refletiva na ponta a cada sei lá quantos metros ao longo de todas as estradas para indicar os limites (imagino que por causa da neve) e não tem buracos, nenhum, nada, zero.

Na volta, saímos de lá mais cedo, então pude curtir a vista. Que sensacional!!! É floresta e lago, lago e floresta. E pedras, muitas pedras, muitas mesmo. Há quem diga que elas vieram parar aqui trazidas pelo fim da Era do Gelo, há quem diga que foram gigantes que as arremessaram. Nunca saberemos a verdade, mas mesmo que não acreditem nessa teoria, é melhor tomar cuidado: há lendas que relatam que grandes aglomerações de pedras nas florestas são apenas gigantes dormindo. Mais sobre a mitologia finlandesa aqui.

A viagem seguiu (com parada em Tuuri, que merece um post exclusivo) e eu comecei a pedir pra o Tero ler as placas com nomes das cidades e traduzir seus significados. Ri bastante e treinei a minha pronúncia, mas, acima de tudo, eu enchi o saco. Mas eu enchi tanto que quando a gente chegou ele me mandou este link. Obviamente não tem todas, mas dá pra se divertir (principalmente tentanto pronunciar em voz alta).

quinta-feira, 13 de março de 2014

Food to heal body and soul

Tero está gripado desde sábado. Tudo começou aos poucos, com um pouco de dor de garganta e dor de cabeça, mas passou essa noite vomitando. Quando chegamos na casa da família dele, sua mãe ainda estava um pouco doente. Todos, começando pelas crianças, tiveram esse vírus from hell que atacou, também, o sistema digestivo.
Nem cócegas eu tive. Aparentemente meu sistema imunólogico construído em país de terceiro mundo não se abala por aqui. :D 
Passamos a noite acordados na função, mas já fomos ao médico, compramos um remédio daqueles horrorosos para repor sais mineirais e os ingredientes para a sopinha que cura o corpo e a alma, de tão gostosa:

3 batatas médias (em pedaços pequenos)
2 cenouras pequenas (em rodelas finas)
1/2 alho-poró bem-dotado (ui!)
1 molho de espinafre (só as folhas, picadas grosseiramente)
150 g de massa pequena (mais ou menos isso, coloquei umas 3 mãos cheias na panela)
sal
alecrim (bem pouquinho porque é ruim de comer, só pra dar um gostinho)
salsa e cebolinha (bem picadinhos pra colocar na hora de servir)

Não esqueçam que cada um tem seu próprio tempo de cozimento. Comece pelas batatas e cenouras, depois o alho-poró. Deixe uns 10 minutos e depois coloque o espinafre. Quando o caldo tiver uma corzinha e o alho-poró tiver desmanchado bem, coloque a massa. Desligue quando ela estiver cozida, não deixe virar gororoba. :P


Tero achou que seria comida de doente, mas experimentou a primeira colherada, abriu um sorriso e disse: "Hmmm, it's good! Very good.". Sopa foi testada e aprovada. :)
Ele conseguiu comer o prato inteiro e agora está dormindo. Até vi um pouco de cor de volta no rosto dele. Espero que fique bem logo.