segunda-feira, 17 de março de 2014

30 days

Balanço dos 30 dias aqui na Finlândia:

* O leite e seus derivados são muito mais gostosos e saborosos, sem formol ou soda cáustica;
* Em andanças a pé, de carro e de ônibus, inclusive indo pra outra cidade, encontrei apenas 2 buracos no asfalto, ambos na mesma rua;
* Ninguém usa batom vermelho, e pessoal fica encantado quando eu uso;
* Bebês e crianças me amam;
* Todo mundo me percebe, mas o caras encaram sem muito pudor, mesmo quando estou de mãos dadas com o Tero - SUCESSO!;
* Existem poucas farmácias, e, sem receita, tu consegue comprar apenas ibuprofeno, paracetamol e meia dúzia de outros remédios bobinhos. Além disso, remédio é remédio, não importa pra quem, então há uma seção veterinária no mesmo estabelecimento;
* Os travesseiros são pequenos, quase metade do tamanho dos travesseiros no Brasil. Na cama, só é usado o lençol de baixo e uma capa para o edredon - que é sempre de solteiro; na cama de casal, há dois -, funcionando como o lençol de cima. Ainda acho estranho, mas evita roubos durante a noite hehehe e não precisa lavar o edredon inteiro, toda semana a capa é lavada com o resto da roupa de cama, só que sinto falta de me enrolar em edredon de casal;
* O trânsito é bem pacífico <3;
* Ninguém reclama de frio;
* Todo mundo usa ceroulas e ninguém fica de "hehehe";
* Existe o fenômeno da loira falsa invertida - as racha aqui piram na tinta preta, mas não retocam a raiz tão frequentemente quanto deveriam -, super achando que abafam;
* Falando em tintura, eu tenho vontade de pegar essa mulherada pelos ombros, dar uma sacolejada e dizer bem claramente: NOPE. NOPE. NOPE. É tanto cabelo manchado e maquiagem pesada e fora do tom da pele que dá muito nervoso;
* Cadê as renas??? :'( ;
* Baunilha, baunilha, baunilha;
* Duchinha na privada é vida;
* Dá pra separar todo o lixo e destinar cada material para o lugar certo, mas o lixo seco é queimado;
* É possível ganhar uma boa grana retornando latas e garrafas em máquinas automáticas nos supermercados e lojas de bebidas, uma garrafa de refrigerante, por exemplo, vale € 0,40;
* Água quente em toda e qualquer torneira é muita alegria na vida;
* O sol está bêbado e anda errado por este céu;
* A água gira ao contrário, e isso é bizarro;
* Tu mesmo tem que tirar a louça da mesa em qualquer restaurante ou café;
* Açúcar em torrões :D;
* Tem bicicletas por todos os cantos;
* Eu fico feliz quando acho pelos das minhas crianças nas roupas e nem quero limpar;
* Muitas saudades;
* Nunca me senti tanto "dust in the wind";
* Sou imensamente grata por estar vivendo tudo isso;
* O amor é transformador;
* A gente carrega nossos monstros para onde quer que a gente vá.

domingo, 16 de março de 2014

The trip inside the trip inside the trip

Então pegamos a estrada com destino a Virrat, cidade em que o Tero nasceu, para a festa de aniversário da Mira, irmã dele. Tinha essa expectativa gigante de conhecer a família e de a família me conhecer, mas fica pro outro post. Esse é sobre a viagem de ida e de volta, 3h cada.


Saímos de Vaasa ao entardecer, logo ficou escuro. Estrada à noite é bem entediante, não dá pra ver paisagem alguma, e ele só me dizia "Ah, tem um lago ali, mas não dá pra ver..", "Tem outro lago daquele lado, mas tá muito escuro.", "Ah, queria te mostrar a floresta!". 
Sem muita emoção mesmo... Porém três coisas me chamaram a atenção: tem um treme-treme-acorda-motorista na divisão entre as duas faixas para um "ACORDA, MALUCO", tem umas varetas com tinta refletiva na ponta a cada sei lá quantos metros ao longo de todas as estradas para indicar os limites (imagino que por causa da neve) e não tem buracos, nenhum, nada, zero.

Na volta, saímos de lá mais cedo, então pude curtir a vista. Que sensacional!!! É floresta e lago, lago e floresta. E pedras, muitas pedras, muitas mesmo. Há quem diga que elas vieram parar aqui trazidas pelo fim da Era do Gelo, há quem diga que foram gigantes que as arremessaram. Nunca saberemos a verdade, mas mesmo que não acreditem nessa teoria, é melhor tomar cuidado: há lendas que relatam que grandes aglomerações de pedras nas florestas são apenas gigantes dormindo. Mais sobre a mitologia finlandesa aqui.

A viagem seguiu (com parada em Tuuri, que merece um post exclusivo) e eu comecei a pedir pra o Tero ler as placas com nomes das cidades e traduzir seus significados. Ri bastante e treinei a minha pronúncia, mas, acima de tudo, eu enchi o saco. Mas eu enchi tanto que quando a gente chegou ele me mandou este link. Obviamente não tem todas, mas dá pra se divertir (principalmente tentanto pronunciar em voz alta).

quinta-feira, 13 de março de 2014

Food to heal body and soul

Tero está gripado desde sábado. Tudo começou aos poucos, com um pouco de dor de garganta e dor de cabeça, mas passou essa noite vomitando. Quando chegamos na casa da família dele, sua mãe ainda estava um pouco doente. Todos, começando pelas crianças, tiveram esse vírus from hell que atacou, também, o sistema digestivo.
Nem cócegas eu tive. Aparentemente meu sistema imunólogico construído em país de terceiro mundo não se abala por aqui. :D 
Passamos a noite acordados na função, mas já fomos ao médico, compramos um remédio daqueles horrorosos para repor sais mineirais e os ingredientes para a sopinha que cura o corpo e a alma, de tão gostosa:

3 batatas médias (em pedaços pequenos)
2 cenouras pequenas (em rodelas finas)
1/2 alho-poró bem-dotado (ui!)
1 molho de espinafre (só as folhas, picadas grosseiramente)
150 g de massa pequena (mais ou menos isso, coloquei umas 3 mãos cheias na panela)
sal
alecrim (bem pouquinho porque é ruim de comer, só pra dar um gostinho)
salsa e cebolinha (bem picadinhos pra colocar na hora de servir)

Não esqueçam que cada um tem seu próprio tempo de cozimento. Comece pelas batatas e cenouras, depois o alho-poró. Deixe uns 10 minutos e depois coloque o espinafre. Quando o caldo tiver uma corzinha e o alho-poró tiver desmanchado bem, coloque a massa. Desligue quando ela estiver cozida, não deixe virar gororoba. :P


Tero achou que seria comida de doente, mas experimentou a primeira colherada, abriu um sorriso e disse: "Hmmm, it's good! Very good.". Sopa foi testada e aprovada. :)
Ele conseguiu comer o prato inteiro e agora está dormindo. Até vi um pouco de cor de volta no rosto dele. Espero que fique bem logo.

quarta-feira, 12 de março de 2014

There and back again

Cinco dias numa cabana no meio da floresta, na beira de um lago, num vilarejo nos arredores de Virrat. Nunca fui tão feliz.
Tem família que me fez chorar com tanta doçura, festa com awkward moments e pitadas de Tourete, viagem dentro da viagem, minha primeira sauna, trago fantástico, floresta fofa, cisnes voando na noite, alerta de lobos, procura por alces, amigas no Skype, o bizarro mundo de Tuuri, inúmeras fotos e muitas histórias pra contar.
Amanhã eu posto alguma coisa, mas ainda estou procurando palavras para expressar a minha gratidão por ter vivido tanto amor e beleza, de todas as formas. Tudo absurdamente simples e imensamente fantástico.
Vou me esforçar ao máximo para descrever da melhor forma e tentar compartilhar o meu encantamento. Até lá, minha gente. :*

quarta-feira, 5 de março de 2014

The little adventure

Segunda-feira, 17 de fevereiro, sete dias após ter partido de Porto Alegre, cinco dias após ter chegado aqui, tive coragem para sair sozinha pela cidade. Conferi pelo Google Street View (muah pra vocês ;*) os pontos de ônibus em que deveria subir e descer, peguei o livrinho com os horários e trajetos dos ônibus, passaporte, dinheiro, câmera e saí.
Um tanto apavorada, outro tanto insegura, mas desesperada para fazer algo sozinha e não me sentir uma abobada dependente que só sai de casa de mão dada e com medo de abrir a boca pra dizer oi.

Lá fui eu desbravar Vaasa.

Desci no ponto certinho, e corri pro shopping porque era o que eu conhecia. Andei um pouquinho, vi algumas vitrines, mas não me senti à vontade. Estranha essa sensação de não pertencimento, de não reconhecimento, te tira qualquer segurança. Mas também te dá infinitas possibilidades: quando se tem um caminho certo, todas as alternativas são válidas.

As pessoas olham muito pra mim, eu fujo muito do padrão dessa gente lindamente loira e de olhos bem clarinhos. Isso me fez sentir ainda mais alienígena e estes pensamentos não me largavam: "todo mundo tá notando que não sou daqui, todo mundo tá notando que eu não entendo nada do que estão falando, todo mundo tá notando que eu não sei o que fazer".

Criei coragem e entrei em uma loja de esportes e comprei um gorro de lã. Fiquei um tempão por lá, mas consegui sair com o que eu queria, então eu já me senti mais capaz. Estava saindo do shopping quando dei de cara com uma loja de comida saudável a granel que o Tero tinha me apontado uns dias antes, quando tudo ainda me assustava bem mais, e não quis nem entrar. Tomei fôlego e fui. Ah, que sensacional! Tem de chá até soja, mas o mais legal é que tem feijão preto! :D Sim! Numa vibe Mercado Público meet boutique, comprei feijão, louro e soja. Na hora de pagar, como sempre, estava munida de dinheiro, inglês e sorriso. A caixa (provavelmente também proprietária) falou algo em finlandês, que obviamente entendi pica nenhuma, e eu pedi desculpas por só falar inglês, mas disse que ia tentar aprender. Pois ela me deu a resposta mais doce e gentil possível: "Também vou tentar, é uma língua tão difícil!". Me derreti, claro. Ela perguntou de onde eu era e jogou uma conversinha fora. Só amor. :)

Depois fui pra biblioteca principal - que lugar absurdamente lindo! -, tomei um café por lá mesmo e decidi que queria ir até a biblioteca onde o Tero trabalha. Ele me disse que ônibus pegar e onde eu deveria ir para isso, mas, como não anda de ônibus, não me falou onde eu deveria descer. Achei que era óbvio. Obviamente não era. Obviamente que desci num lugar randômico absolutamente nada a ver. Obviamente que me perdi. 


Sim, eu me perdi. De uma forma patética e nada a ver, eu me perdi. heuehueheuh

Daí em diante eu tinha apenas uma opção: pedir ajuda. O problema é que eu ainda não tinha comprado um chip pro meu celular, portanto eu estava incomunicável. E agora, José? Então era eu, ali, sozinha num país estranho, sem entender o idioma, sem telefone/internet. Caguei-me. Mas sem outra escolha, tomei coragem e decidi que falaria com alguém. O meu medo não era ficar perdida, já que, na pior das hipóteses, eu poderia pegar um ônibus de volta para o centro e de lá outro para casa. O problema é que os ônibus costumam passar a cada 30 min ou 1h, e, com exceção dos supermercados e restaurantes, as lojas fecham às 18h. Já era 17h30min e eu não sabia até horas eles circulariam. Então eu teria que tentar chegar na biblioteca mesmo. Não se esqueçam que é uma cidade pequena, não tem dezenas de pessoas passando o tempo todo. Tive que esperar um bom tempo até alguém passar e eu criar coragem. Até que foi - pedi ajuda para uma senhora, mas ela mal conseguia falar inglês. Com certo esforço de ambas as partes, ela conseguiu entender onde eu queria ir, mas não sabia dizer onde era. Só sorrisos, a senhora queria muito me ajudar e, ao ir embora, quando passou por uma moça que estava indo para a parada também, falou com ela para que tentasse me socorrer. Conseguindo se virar num inglês um pouco melhor, conseguimos nos entender. A boa notícia era que ela pegaria o mesmo ônibus que eu e a parada dela era depois da biblioteca. Ela até apertou o botão do ônibus e quase me levou pela mão até a porta. hehehehehe Gente muito fofa essa. 

Foi essa coisa boba - conseguir chegar na biblioteca em que o love trabalha - que me conseguiu me devolver um pouco da segurança que eu tinha em Porto Alegre (e que tem sido bem difícil de manter num nível aceitável). Por mais estranho e assustador que o mundo lá fora possa parecer, eu sempre vou poder contar com a gentileza de um povo que tem fama de ser tímido e frio, mas que apenas funciona numa dinâminca diferente. O que vi são pessoas empáticas e dispostas a ajudar, com o hábito de se abrirem apenas em âmbito privado, mas com um senso comum do que é viver em comunidade muito mais próximo do meu ideal.

No Brasil, todo mundo sabe da vida de todo mundo, mesmo não fazendo questão - o vizinho te encontra no corredor e te conta que a fulana do outro andar acabou com o namorado e já está com outro -, mas se tu tropeçar na rua e cair no chão, vão passar por cima e ainda reclamar que tu está atrapalhando o caminho. 

P.S.1: Está fora de ordem, sim, porque demorei milênios para terminar o post. :P

Sale! Sale! Sale!

Casaco de lã azul marinho:  € 16
Blusão de lã preto:  € 14
Golão de lã cinza:  € 5

E o resultado é eu divando no saldão de inverno finlandês.


Tá, o objetivo não é fazer editorial de moda, mas um monte de gente me pergunta sobre os preços por aqui. Esta foi uma maneira divertida de falar sobre isso ;)

segunda-feira, 3 de março de 2014

A tradition

Onde tem brasileiro tem o quê? Feijão com arroz.


O feijão eu comprei na lojinha de produtos naturais que encontrei no primeiro dia em que passiei sozinha (e que nunca termino de escrever o post), mas semana passada eu vi num supermercado em pacote de 1 Kg (até então só os enlatados BLERGHS).
O arroz eu comprei no super mesmo, mas foi complicado escolher porque todos vêm em caixas, então pra escolher o grão tem que ser por foto, e todo arroz é igual em foto. :/
Depois de um tempo, escolhi o jasmim e é bem o que eu queria - o "arroz branco".

Beijos e muito papá gostoso pra todo mundo.

domingo, 2 de março de 2014

Following the ancestors

Imaginem a minha frustração ao descobrir que não existe nhoque na Finlândia... FUEN.

Challenge accepted!

1 kg de batata (ferver e amassar)
1 ovo
1 colher de manteiga
sal
farinha (entre 1/2 kg e 1 kg, até a massa parar de grudar na mão)

É só amassar, amassar, amassar, amassar.......... até os braços caírem fora ou a massa parar de grudar, o que vier primeiro. Aí tem que fazer os rolos e cortar os pedacinhos, depois colocá-los em água fervente por uns minutinhos e tchanãããããm: NHOQUE NA FINLÂNDIA (ou em qualquer lugar que estiverem :D).



 Fiz com molho de tomate com manjericão da minha micro horta. Fantasticamente delicioso.