quarta-feira, 5 de março de 2014

The little adventure

Segunda-feira, 17 de fevereiro, sete dias após ter partido de Porto Alegre, cinco dias após ter chegado aqui, tive coragem para sair sozinha pela cidade. Conferi pelo Google Street View (muah pra vocês ;*) os pontos de ônibus em que deveria subir e descer, peguei o livrinho com os horários e trajetos dos ônibus, passaporte, dinheiro, câmera e saí.
Um tanto apavorada, outro tanto insegura, mas desesperada para fazer algo sozinha e não me sentir uma abobada dependente que só sai de casa de mão dada e com medo de abrir a boca pra dizer oi.

Lá fui eu desbravar Vaasa.

Desci no ponto certinho, e corri pro shopping porque era o que eu conhecia. Andei um pouquinho, vi algumas vitrines, mas não me senti à vontade. Estranha essa sensação de não pertencimento, de não reconhecimento, te tira qualquer segurança. Mas também te dá infinitas possibilidades: quando se tem um caminho certo, todas as alternativas são válidas.

As pessoas olham muito pra mim, eu fujo muito do padrão dessa gente lindamente loira e de olhos bem clarinhos. Isso me fez sentir ainda mais alienígena e estes pensamentos não me largavam: "todo mundo tá notando que não sou daqui, todo mundo tá notando que eu não entendo nada do que estão falando, todo mundo tá notando que eu não sei o que fazer".

Criei coragem e entrei em uma loja de esportes e comprei um gorro de lã. Fiquei um tempão por lá, mas consegui sair com o que eu queria, então eu já me senti mais capaz. Estava saindo do shopping quando dei de cara com uma loja de comida saudável a granel que o Tero tinha me apontado uns dias antes, quando tudo ainda me assustava bem mais, e não quis nem entrar. Tomei fôlego e fui. Ah, que sensacional! Tem de chá até soja, mas o mais legal é que tem feijão preto! :D Sim! Numa vibe Mercado Público meet boutique, comprei feijão, louro e soja. Na hora de pagar, como sempre, estava munida de dinheiro, inglês e sorriso. A caixa (provavelmente também proprietária) falou algo em finlandês, que obviamente entendi pica nenhuma, e eu pedi desculpas por só falar inglês, mas disse que ia tentar aprender. Pois ela me deu a resposta mais doce e gentil possível: "Também vou tentar, é uma língua tão difícil!". Me derreti, claro. Ela perguntou de onde eu era e jogou uma conversinha fora. Só amor. :)

Depois fui pra biblioteca principal - que lugar absurdamente lindo! -, tomei um café por lá mesmo e decidi que queria ir até a biblioteca onde o Tero trabalha. Ele me disse que ônibus pegar e onde eu deveria ir para isso, mas, como não anda de ônibus, não me falou onde eu deveria descer. Achei que era óbvio. Obviamente não era. Obviamente que desci num lugar randômico absolutamente nada a ver. Obviamente que me perdi. 


Sim, eu me perdi. De uma forma patética e nada a ver, eu me perdi. heuehueheuh

Daí em diante eu tinha apenas uma opção: pedir ajuda. O problema é que eu ainda não tinha comprado um chip pro meu celular, portanto eu estava incomunicável. E agora, José? Então era eu, ali, sozinha num país estranho, sem entender o idioma, sem telefone/internet. Caguei-me. Mas sem outra escolha, tomei coragem e decidi que falaria com alguém. O meu medo não era ficar perdida, já que, na pior das hipóteses, eu poderia pegar um ônibus de volta para o centro e de lá outro para casa. O problema é que os ônibus costumam passar a cada 30 min ou 1h, e, com exceção dos supermercados e restaurantes, as lojas fecham às 18h. Já era 17h30min e eu não sabia até horas eles circulariam. Então eu teria que tentar chegar na biblioteca mesmo. Não se esqueçam que é uma cidade pequena, não tem dezenas de pessoas passando o tempo todo. Tive que esperar um bom tempo até alguém passar e eu criar coragem. Até que foi - pedi ajuda para uma senhora, mas ela mal conseguia falar inglês. Com certo esforço de ambas as partes, ela conseguiu entender onde eu queria ir, mas não sabia dizer onde era. Só sorrisos, a senhora queria muito me ajudar e, ao ir embora, quando passou por uma moça que estava indo para a parada também, falou com ela para que tentasse me socorrer. Conseguindo se virar num inglês um pouco melhor, conseguimos nos entender. A boa notícia era que ela pegaria o mesmo ônibus que eu e a parada dela era depois da biblioteca. Ela até apertou o botão do ônibus e quase me levou pela mão até a porta. hehehehehe Gente muito fofa essa. 

Foi essa coisa boba - conseguir chegar na biblioteca em que o love trabalha - que me conseguiu me devolver um pouco da segurança que eu tinha em Porto Alegre (e que tem sido bem difícil de manter num nível aceitável). Por mais estranho e assustador que o mundo lá fora possa parecer, eu sempre vou poder contar com a gentileza de um povo que tem fama de ser tímido e frio, mas que apenas funciona numa dinâminca diferente. O que vi são pessoas empáticas e dispostas a ajudar, com o hábito de se abrirem apenas em âmbito privado, mas com um senso comum do que é viver em comunidade muito mais próximo do meu ideal.

No Brasil, todo mundo sabe da vida de todo mundo, mesmo não fazendo questão - o vizinho te encontra no corredor e te conta que a fulana do outro andar acabou com o namorado e já está com outro -, mas se tu tropeçar na rua e cair no chão, vão passar por cima e ainda reclamar que tu está atrapalhando o caminho. 

P.S.1: Está fora de ordem, sim, porque demorei milênios para terminar o post. :P

3 comentários:

mjbfinatto disse...

Muito legal! Eu caí na calçada do Iguatemi, fiquei no chão
E passava, por mim na boa... Quebrei a costela e levantei sozinha...no lugar em que sempre corria...tropecei.

mjbfinatto disse...

As pessoas passaram por mim como se fosse uma formiga ali no chão... E tinham que desviar!

Unknown disse...

Exatamente!!!!!

É por isso que somos um povo completamente desunido e bagunçado, em todo e qualquer nível, cada um só pensa em si próprio, exclusivamente.